Seguramente, foi em 1959 que assentei arraiais na Brasileira do Chiado,
no grupo pontificado por Tomaz de Figueiredo, Jorge Barradas, Abel Manta e
Almada-Negreiros, onde fui dar pela mão de artistas plásticos cujo vasto
atelier passou a ser, também, meu poiso habitual. Meu de muitas outras
pessoas.
Em tardes de inverno, com a lareira acesa e tomando chá, por ali
passava a dizer poemas Vasco Lima Couto e, a inundar o espaço com a sua voz
inesquecível, Eunice Muñoz. Gente do teatro, do cinema, da música, das artes
plásticas, do jornalismo, das letras, ali conviviam com serenidade e gosto.
A escritora Isabel da Nóbrega começou a ser habitual e depressa se tornou
uma amiga dos donos do atelier. Senhora de bom berço e fino trato,
inteligente e culta, bem instalada na vida, caíu numa cilada do demónio.
Apaixonou-se por um zé ninguém, nem sequer bonito, muito menos simpático e
bem educado, que olhava tudo e todos de nariz empinado, numa
pseudo-superioridade de quem tem contas a ajustar com a vida, quezilento e
muito chato. Falava como um pregador de feira e era intragável. Mas, em
atenção à Isabel, lá íamos aturando o José Saramago.
Para mim, que sou péssima, foi ponto assente: aquele não a ia fazer
limpa, era um depósito de ódio recalcado. Foi por isso que não me admirei
nada quando o vi director do Diário de Notícias, a mando do Partido
Comunista, onde, da noite para o dia, lançou ao desemprego 24 jornalistas,
dos da velha escola, dos que escrevem com pontos e vírgulas, deixando-os, e
às famílias, sem pão. Tambem não fiquei minimamente surpreendida quando
soube que abandonou Isabel da Nóbrega, que tanto fez por ele, para
alvoroçadamente casar com uma espanhola que foi freira e tem vastos
conhecimentos no mundo da política e das letras. Para mim, estava tudo a
condizer com a figura.
Cá de longe soube que publicava livros e vendia muito. Não me aqueceu
nem arrefeceu, porque nunca li nada escrito por ele nem tenciono perder
tempo com isso. Não me apetece, e está tudo dito. Nem o Nobel que lhe deram
me impressionou, porque já vi o Nobel ser dado sem critério algumas vezes.
Acho mesmo que o prémio está a ficar muito por baixo.
E agora, o homenzinho da Golegã a chamar nomes a Deus, a insultar a
Bíblia nuns raciocínios primários de operário em roda de tasca. Dizem que o
fez por golpe publicitário. Talvez. Acho que é capaz disso e de muito mais.
No entanto, creio que, no meio do aranzel, apenas houve uma pessoa que lhe
fez o diagnóstico certo: António Lobo Antunes, numa magistral entrevista
dada à RTP, há dias, respondeu a Judite de Sousa, que o interrogava sobre as
tiradas de Saramago, que essas vociferações contra Deus lhe tinham feito
medo. E adiantou: "tenho medo de chegar à idade dele assim, sem senso
crítico". Está tudo dito. É mais um como há tantos anciãos de tino perdido
em Portugal. É deixá-lo andar. A mim tanto se me dá!
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